Quanto
custa contratar arquiteto e engenheiro
Os valores dos
serviços desses profissionais variam conforme a
região e até dentro da mesma cidade e dependem
da experiência de cada um. As associações
de classe, porém, sugerem tabelas de cálculo.
Ninguém
duvida dos benefícios de contratar um profissional
para tocar a construção ou a reforma da
casa - isso garante um projeto adequado às necessidades
da família, o cumprimento de cronogramas e a execução
de acordo com o planejado. Para decidir que tarefas contratar,
você precisa estar por dentro dos processos da construção,
ou seja, do passo-a-passo da obra. O profissional pode
auxiliá-lo desde o momento da compra do terreno
até a hora de escolher os materiais - tudo depende
da formação dele e da estrutura que o escritório
tem a oferecer. "Por isso, solicite ao arquiteto
ou ao engenheiro uma lista dos serviços que ele
costuma efetuar", recomenda o arquiteto Paulo Lisboa,
vice-presidente da Associação Brasileira
dos Escritórios de Arquitetura (Asbea).
Associações sugerem valores
Na prática, não há um órgão
específico que estabeleça os custos dos
serviços de arquitetura e engenharia. "Isso
depende da relação entre oferta e procura",
afirma a engenheira civil Célia Sapucahy, diretora
do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo
(Seesp). Para conhecer a média dos valores no mercado
e a forma como são calculados, procure as tabelas
de honorários nas associações de
classe.
De
acordo com os serviços requeridos, o profissional
irá mensurar a remuneração de seu
honorário, "que poderá englobar não
só o valor do projeto mas também de serviços
como administração de obras, vistorias,
pareceres, entre outros", diz o arquiteto Gilberto
Belleza, presidente nacional do Instituto dos Arquitetos
do Brasil (IAB).
Formas de cálculo
Em geral, elas são semelhantes para os honorários
de arquiteto e engenheiro. Apenas no caso da cobrança
por horas técnicas é que as regras mudam
de uma para outra categoria.
• A porcentagem sobre o custo estimado (que adota
como referência algum dos índices da construção)
ou orçado da obra é uma das formas de pagar
os honorários. "Quanto maior a empreitada,
menor o percentual", avisa Ronaldo Guimarães
Cintra Rezende, presidente da Asbea. Para a produção
de projetos de arquitetura, a associação
recomenda entre 5 e 15%. Já o IAB trabalha com
percentuais que vão de 3 a 10,8%, conforme a área
e o padrão do imóvel. Segundo Gilberto,
"há variáveis que podem ser aplicadas,
reduzindo ou aumentando essa porcentagem, em função
da complexidade do projeto".
• O pagamento pelo metro quadrado da área
construída é outra forma de cálculo.
Nesse caso, a referência é o Custo Unitário
Básico (CUB), valor do metro quadrado da construção,
calculado pelos Sindicatos da Construção
de cada estado. Por exemplo, em setembro de 2007, o CUB
de imóveis residenciais em São Paulo foi
de R$ 883,74 o m2. Se o seu arquiteto aplicasse 5% como
índice determinante, o serviço sairia por
R$ 44,18 o m2.
• O custo da hora técnica também é
um modelo adotado por alguns escritórios. O profissional
considera os custos variáveis e fixos do escritório
que incidem sobre o serviço - aluguel, impostos,
telefone, salários do administrativo, desgaste
dos equipamentos e instalações pelo uso,
abatimento do preço dos softwares utilizados etc.
- mais os honorários, que variam em função
da experiência do profissional, e divide o total
pela carga horária estimada. Esse tipo de cobrança
é mais utilizada para as visitas à obra
(quando elas não estão contempladas no contrato)
ou quando o arquiteto ou o engenheiro não for o
responsável pela administração da
construção.
Segundo o IAB, o custo da visita muda conforme a experiência
do arquiteto, saindo entre R$ 100 e R$ 200 a hora. Para
estimar o tempo gasto, o profissional irá considerar
o intervalo usado para o serviço - ou seja, do
momento de saída até o retorno ao local
de origem. O escritório Hochheimer Imperatori,
que adota um software próprio para calcular o custo
da hora, costuma incluir em seus honorários a quantidade
necessária de horas para o acompanhamento de uma
construção. "O que passar disso será
cobrado de acordo com um valor acertado na contratação",
conta George Hochheimer. "O tempo gasto muda conforme
a dificuldade e o detalhamento do trabalho", completa.
A Asbea disponibiliza para os profissionais associados
um programa específico para o cálculo e
sugere a hora técnica também para estipular
o preço do projeto. Se você quiser saber
quantas horas foram gastas só na elaboração
do projeto, "solicite uma planilha de controle de
tempo ao seu arquiteto", ensina a contadora Fernanda
Zannini, consultora de finanças, marketing e gestão
da Asbea. No caso dos engenheiros, a cobrança pela
hora técnica é determinada de modo diferente
da dos arquitetos. "Essas contas baseiam-se no salário
registrado para cada atividade", explica Marco Antônio
Domingues, engenheiro de produção especializado
em administração de operações
e diretor de programas do Instituto de Engenharia (IE).
O piso salarial em São Paulo para oito horas em
outubro de 2007, por exemplo, ficou em R$ 3 420, segundo
o Seesp.
Na
conta proposta pelo IE, esse valor é dividido por
220 horas e multiplicado por cinco (fator que considera
o quanto o profissional trabalharia por mês se estivesse
registrado e embute as horas não trabalhadas, férias
e fundo de garantia), resultando em R$ 77,72 por hora.
Além desses modelos de pagamento, há quem
cobre um valor fechado. "Possivelmente, essa conta
terá como base uma porcentagem sobre o custo total
da construção ou o cálculo sobre
o preço cobrado pelos profissionais envolvidos
no serviço", pondera Gilberto Belleza.
Projeto completo
Estudo
preliminar: configuração inicial
da proposta arquitetônica a ser aprovada pelo cliente.
Considera o programa de necessidades do cliente e as informações
legais sobre o terreno e o entorno. São esboços,
estudo de materiais, volumetria e ocupação
do terreno, relacionados a aspectos legais e de insolação.
Gera plantas, mas dificilmente cortes.
Anteprojeto: representação
final da proposta arquitetônica, que considera o
estudo preliminar aprovado pelo cliente. Apresenta plantas
de situação, plantas baixas, de cobertura,
cortes gerais, fachadas e especificações.
Como opção pode fornecer maquetes, perspectivas,
anteprojetos complementares e orçamento estimativo.
Já é palpável e ainda pode sofrer
mudanças.
Projeto legal: usado para a aprovação
na prefeitura, contém as informações
do estudo preliminar e os desenhos do anteprojeto na escala
e nos padrões exigidos pelo órgão
legal do município onde a obra será realizada.
É um compromisso de que a obra seguirá o
mínimo especificado em lei: recuos, gabarito, tamanho
de aberturas, área e pé-direito dos ambientes.
Projeto pré-executivo: feito no
caso de obras grandes e quando o cliente precisa aprovar
detalhamentos e materiais antes do projeto executivo.
Considerado a primeira etapa do executivo.
Projeto executivo: baseado no anteprojeto
ou no pré-executivo, ajusta-se aos projetos complementares,
contendo pontos de hidráulica e elétrica,
vistas das paredes das áreas molhadas com localização
das peças e a paginação do revestimento,
detalhamento de piso, paredes, caixilhos, forro e tudo
o que for necessário para a execução
da obra. Oferece memorial descritivo com modo de fazer
e quantitativo do material.
Projetos complementares: estrutural,
de instalações elétricas, de telefonia,TV,
interfones e câmaras, de instalações
hidráulicas, de ar-condicionado, de impermeabilização
e de luminotécnica.
Arquiteto ou engenheiro civil?
"Os dois têm competência para prestar
os serviços ligados à construção
civil", responde o arquiteto Afonso Celso Bueno Monteiro,
diretor técnico do Conselho Regional de Engenharia,
Arquitetura e Agronomia de São Paulo (Crea-SP).
"Mas é praxe no Brasil que o dimensionamento
e a organização dos espaços fiquem
a cargo do arquiteto e o cálculo estrutural e a
responsabilidade técnica sejam assumidos pelo engenheiro
civil, por causa das diferenças nas cargas horárias
na faculdade e pela própria prática",
explica.
Atribuições dos profissionais
Arquitetos:
Projetos de arquitetura, de hidráulica,
de elétrica e de estrutura, paisagismo, construção
e urbanismo.
Engenheiros
:
• Civil: projeto de arquitetura, de hidráulica,
elétrica e estrutura, construção.
• Eletricista: projeto e dimensionamento das instalações
elétricas.
• Hidráulico: aprovações nas
concessionárias das instalações hidráulicas.
• Estrutural: cálculo do dimensionamento
das fundações e estruturas.
Aposte
no contrato
Esse é o compromisso entre você e os profissionais
envolvidos na obra e, por isso, deve ser muito claro.
Começando pelo escopo do trabalho, que se for bem
detalhado garante a precisão do valor e do resultado
da obra. Marco Antônio aconselha que o documento
especifique (além dos serviços a serem executados)
também aquilo que o arquiteto ou o engenheiro não
fornece - e, se fornecer, qual será o custo estimado.
Administração de obras
Desse trabalho fazem parte as compras e o recebimento
dos materiais, a contratação dos fornecedores,
prestadores de serviço e o acompanhamento da execução.
É comumente cobrado por porcentagem. Entre os arquitetos,
o percentual varia de 10 a 30% sobre o custo da construção.
"Já a categoria dos engenheiros adota o percentual
de 15%", informa Célia Sapucahy, diretora
do Seesp. Se você contratar o mesmo profissional
para projetar e administrar a obra, poderá pagar
menos pelo projeto.
Projeto completo ou parcial
Tanto o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) quanto
a Asbea sugerem a contratação do projeto
completo, que engloba do estudo preliminar aos projetos
executivo e complementares, mas não há regras
fixas. Muitos clientes encomendam trabalhos parciais:
"Eles pagam só o anteprojeto. Depois, repassam
o serviço do projeto legal a empresas especializadas
na tramitação com a prefeitura e acabam
usando o próprio anteprojeto para a execução",
fala o arquiteto Fernando Rocha Romano, da R2 Arquitetura,
de São Paulo. No entanto, isso não é
o ideal. "Quanto mais detalhado o projeto, mais controlável
e planejada será a obra", alerta o arquiteto
George Hochheimer. Por assegurar também o desempenho
da construção, o profissional escolhido
para desenvolver o projeto tem o dever de fiscalizar os
trabalhos. Qualquer mudança deve ser feita pelo
autor. "Do contrário, o cliente perde a garantia
dos serviços e o profissional se exime de responsabilidades",
afirma Paulo Lisboa.
A polêmica reserva técnica
Teoricamente, ela funcionaria como um programa de fidelidade
para o profissional que especifica materiais e sistemas.
O lojista costuma dar ao arquiteto ou engenheiro uma comissão
em torno de 5% pela indicação técnica
de determinado produto, que varia conforme a empresa.
O correto é que o comprador esteja ciente sobre
a reserva técnica e que não arque com custos
extras por causa dela - se o produto custa R$ 300 deve
continuar custando R$ 300. Caso o profissional queira,
ele até pode reverter essa comissão em desconto
para o cliente. Assim, o valor do prêmio seria subtraído
do custo da compra, que neste caso sairia por R$ 285.
No entanto, ele não é obrigado!
Na
prática, o que se observa é um quadro totalmente
diferente. "Como a reserva técnica não
é regulamentada, ela tem sido usada como um instrumento
de corrupção que inflaciona o mercado e
interfere diretamente na remuneração do
profissional", afirma o arquiteto Dante Della Manna.
Para conquistar o cliente a qualquer preço, há
profissionais que não seguem os preços do
mercado e sobrevivem da reserva técnica. Eles cobram
pouco pelos serviços, presenteiam o cliente com
o projeto ou não cobram as visitas à obra.
Em contrapartida, sem o conhecimento do cliente, recebem
a diferença de seus honorários através
do comissionamento pela indicação do produto.
Ou seja, o fornecedor fatura a compra acima do valor real
e repassa a comissão ao profissional. O cliente
pensa que economizou com os serviços, mas no fim
da obra, quando a verba termina e ele coloca na ponta
do lápis os custos, descobre que gastou mais do
que o previsto por causa das compras. O IAB, o IE e a
Asbea rejeitam esse tipo de relação com
o cliente. "Se o profissional for bem pago pelos
serviços prestados, ele passa folgadamente por
essa mora", argumenta Paulo Lisboa. "Quando
os projetos não são cobrados corretamente,
acabam gerando soluções irregulares, que
transgridem a harmonia entre cliente e profissional",
argumenta Gilberto. "Devem ser respeitadas as regras
de conduta que colocam a relação acima de
tudo", diz Marco Antônio Domingues. "Segundo
normas do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura
e Agronomia [Crea], não é permitido ser
remunerado por um trabalho através de duas fontes.
O
profissional pode até ser preso", alega Dante.
Mais uma vez entra em cena a transparência. Desde
que especificada em contrato e acordada com o cliente,
não há oposição a essa maneira
de remuneração. "Há países,
caso dos Estados Unidos, em que nenhuma compra referente
à construção pode ser realizada sem
a presença de um arquiteto, que é remunerado
pela indicação", exemplifica Paulo.
O
arquiteto Marcio Moraes defende que, a exemplo do que
ocorre nos Estados Unidos, a reserva técnica poderia
ser legalizada, pois assim haveria transparência
no relacionamento entre cliente e profissional e também
a responsabilidade legal sobre o material aplicado - no
Brasil, isso está longe de ser uma obrigação.
Essa remuneração seria relativa ao tempo
gasto para pesquisa e compra. Quando o contrato do projeto
inclui administração da obra, o recebimento
dessa comissão pelo profissional caracteriza uma
dupla cobrança. "Não tem cabimento
o arquiteto receber uma porcentagem do cliente e outra
[reserva técnica] do lojista para administrar a
mesma compra. A obra fica superfaturada", diz Marcio.
"A boa administração é também
conseguir o menor preço para o proprietário."
A versão de quem contratou
O
empresário João Paulo Barboza Maluf, de
São Paulo, comprou um apartamento antigo e precisava
atualizar distribuição, acabamentos e instalações
hidráulicas, além de mobiliar os ambientes.
João Paulo contratou um arquiteto recém-formado,
indicado por conhecidos, que lhe apresentou três
estudos e se responsabilizou pelos projetos de luminotécnica,
gesso e marcenaria. O profissional orçou e participou
da compra dos materiais e móveis, fiscalizou e
acompanhou a obra diariamente, cumprindo plenamente o
acordado em contrato. • Área do imóvel:
195 m2 • Tempo de obra: 5 meses • Custo da
construção: R$ 300 mil • Valor do
serviço: 2% (estudo preliminar com localização
dos móveis, anteprojeto, projeto executivo, projetos
de luminotécnica e marcenaria, compras e acompanhamento
da obra) • Reserva técnica recebida pelo
arquiteto: 5 a 10% de algumas compras - com o conhecimento
do cliente.
O
médico Nelson Schor contratou um arquiteto experiente
para projetar, coordenar os projetos complementares e
administrar a obra da sua casa de férias. Para
Nelson, não há reclamações
quanto ao projeto e à previsão orçamentária,
e sim com a execução da casa, visto que
ele gastou depois 20% para refazer os trabalhos. O terreno,
em Barueri, SP, é muito úmido e o projeto
não considerou isso, o que causou muitos problemas.
O serviço de impermeabilização e
o jardim, por falta de drenagem, tiveram de ser revistos.
"Apesar de o arquiteto ter tentado resolver as falhas,
arquei com os custos mais do que ele. Só os reparos
na impermeabilização levaram R$ 40 mil",
lamenta-se o médico, que recomenda fazer um contrato
meticuloso com as empresas terceirizadas. • Área
do imóvel: 500 m2 • Tempo de obra: 12 meses
• Custo da construção: R$ 500 mil
• Valor do serviço: 5% (projeto completo
e compatibilização dos projetos complementares)
+ 15% (gerenciamento da obra) • Reserva técnica:
não houve Reportagem e texto: Silvana Maria Rosso
Na
internet, o publicitário Gustavo Sarkis, de São
Paulo, encontrou o arquiteto que procurava. "Eu me
identifiquei com o estilo dele", conta. O profissional
responsabilizou-se pelo projeto e pela execução
da obra. "Acho que paguei o justo. Não tive
dor de cabeça. O profissional é organizado,
respeitado pelos fornecedores e atendeu às minhas
necessidades", diz. • Área do imóvel:
282 m2 • Tempo de obra: 10 meses • Custo da
construção: R$ 350 mil • Valor do
serviço: 1,5% (anteprojeto) + 8% (projeto executivo)
+ 18% (gerenciamento da obra) • Reserva técnica:
não houve
Reportagem e texto: Silvana Maria Rosso